O Espírito e a Lei
Jesus veio mostrar e ensinar o Amor. E esse Amor reside na sinceridade e pureza de coração e não no cumprimento de leis por si mesmas. Não é o "fazer em si", mas o "porque" e os "meios" de fazer o "o que de se deve fazer". Deus quer fidelidade de coração e não de palavras ou letras, ou seja, a conduta íntima de cada um ( Rm 2: 16 )( o espírito com que se "deve fazer" e que possibilita "fazer" ); pelo que cada um será julgado de acordo com as próprias obras ( Rm 2: 6 ). E até mesmo quem não conhece a Lei de Deus ( a Letra ) será julgado, de acordo com a sua consciência ( a Lei Natural que Deus colocou no coração de cada homem - Rm 2: 14,15 ). Não que a Lei não seja justa e santa, mas é a postura em relação à ela. Sem o que nem será possível cumpri-la.
A sinceridade e o Amor para com Deus implica na sinceridade e Amor para consigo mesmo, e ao próximo também:
"Quem não Ama a si mesmo, não é capaz de Amar os outros, nem a Deus".
"Quem não é sincero consigo mesmo, não é capaz de ser sincero com os outros, nem com Deus".
"Quem não é fiel a si mesmo, não é capaz de ser fiel aos outros, nem a Deus".
Pois Deus tudo sabe e tudo vê.
TRECHO DA CARTA ENCÍCLICA DE JOÃO PAULO II:
O ESPLENDOR DA VERDADE
"E eis que se aproximou de Jesus um jovem, e lhe disse: Mestre, que bem farei para conseguir a vida eterna? Respondeu-lhe Jesus: Por que me perguntas sobre o que é bom? Um só é bom; mas se é que queres entrar na vida eterna, guarda os mandamentos. Perguntou-lhe ele: Quais? Respondeu Jesus: Não matarás; não adulterarás; não furtarás; não dirás falso testemunho; honra a teu pai e a tua mãe; e amarás o teu próximo como a ti mesmo. Disse-lhe o jovem: Tudo isso tenho guardado; que me falta ainda? Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, segue-me". (Mt 19: 16-21).
Percebemos que este jovem faz a pergunta: "que bem farei para conseguir a vida eterna?", não é por ignorar a resposta contida na Lei, a qual observara, mas pelo anseio de plenitude buscado pelo seu coração.
Antes de responder a pergunta, Jesus quer que o jovem se esclareça a si próprio sobre o motivo por que o interroga: "Ninguém é bom senão só Deus". A resposta apenas pode ser encontrada dirigindo a mente e o coração para Aquele que só é bom. A bondade que atrai e simultaneamente vincula o jovem, tem a sua fonte em Deus, mais, é o próprio Deus. Esta afirmação reconduz o jovem à primeira tábua dos dez Mandamentos do Sinai, que convida a reconhecer Deus como Senhor único e absoluto e só a Ele prestar culto, por causa da sua Santidade Infinita (Ex 20: 2-11). O bem consiste em pertencer a Deus, obedecer-lhe, caminhar humildemente com Ele, praticando a justiça e amando a piedade. Reconhecer o Senhor como Deus é o núcleo fundamental, o coração da Lei, do qual derivam e para o qual se ordenam os preceitos particulares.
Ao responder a pergunta , Jesus diz ao jovem para cumprir os Mandamentos da segunda tábua do Sinai. Esses preceitos exprimem a proteção da vida humana, a comunhão das pessoas no matrimônio, a propriedade privada e a boa fama. Deste modo, enuncia uma estreita relação entre a vida eterna e a obediência dos Mandamentos de Deus: são estes que indicam ao homem o caminho da vida e a ela conduzem. O Mandamento está unido a uma promessa: o objeto da promessa, na Antiga Aliança, era a posse de uma terra onde o povo poderia viver uma existência em liberdade e conforme a justiça. Na Nova Aliança, o objeto da promessa é o Reino dos Céus. Enquanto a primeira tábua aponta para o reconhecimento de Deus como Senhor, a segunda tábua aponta para as relações entre os homens com a finalidade de harmonizá-las, cujo resumo e fundamento é o mandamento do amor ao próximo: "ama o teu próximo como a ti mesmo".(Mt 19: 19). De fato, esses mandamentos referem-se ao bem da pessoa em relação com Deus, com o próximo e com o mundo das coisas, ensinando a verdadeira humanidade do homem. Estes Mandamentos constituem a primeira etapa necessária no caminho para a liberdade, para a salvação e deles dependem toda a Lei e os Profetas (Mt 22: 40). Os Mandamentos de amor à Deus e ao próximo estão profundamente unidos entre si e compenetram-se reciprocamente: sem o amor ao próximo, não é possível o autêntico amor a Deus.
O jovem, após dizer a Jesus que cumpria os Mandamentos, pergunta: "O que ainda falta?", sabendo que está ainda longe da meta e percebendo que lhe falta alguma coisa. Jesus, na sua resposta, aproveitando a nostalgia do jovem na busca de uma plenitude que supere a interpretação legalista dos Mandamentos, convida o jovem a tomar o caminho da perfeição: "Se queres ser perfeito abandona tudo, vem e segue-me". Ele convida ao seu seguimento e à comunhão de vida com Ele, mediante o Dom divino da Graça.
Se só Deus é o bem, nenhum esforço humano, nem sequer a observância mais rigorosa dos Mandamentos, consegue cumprir a Lei, isto é, reconhecer o Senhor como Deus e prestar-Lhe a adoração que só a Ele é devida. O cumprimento da Lei pode vir apenas de um dom de Deus: é a oferta de uma participação na bondade divina que se revela e comunica em Jesus, Aquele a quem o jovem designa com os termos: "Bom Mestre". Só Deus pode responder à pergunta sobre o bem, porque Ele é o bem. Mas Deus respondeu já a esta pergunta: fê-lo, criando o homem e ordenando-o com sabedoria e amor ao seu fim, mediante a Lei inscrita no seu coração, a lei natural (cf. Rm 2: 15). Esta não é mais do que a luz da inteligência infundida por Deus em nós. Graças a ela, conhecemos o que se deve cumprir e o que se deve evitar. Fê-lo, depois, na história de Israel, particularmente com os dez Mandamentos do Sinai. O dom do Decálogo é promessa e sinal da Nova Aliança, quando a Lei for nova e definitivamente escrita no coração do homem (cf. Jr 31: 31-34), substituindo a Lei do pecado, que aquele coração tinha deturpado (cf. Jr 17: 1). Então será dado um coração novo, porque nele habitará um espírito novo, o Espírito de Deus. (cf. Ez 36: 24-28). A Nova Lei é a Graça do Espírito Santo dada pela fé em Cristo.
Jesus Cristo é a chave das Escrituras: Ele é o fim da Lei, não enquanto carência, mas como plenitude da Lei: veio levá-la a cumprimento. Da mesma forma que há um Antigo Testamento, mas a verdade total está contida dentro do Novo Testamento, assim se dá com a Lei: aquela que foi dada através de Moisés é figura da verdadeira Lei, uma cópia da verdade. Jesus leva a cumprimento os Mandamentos de Deus, nomeadamente o mandamento do amor ao próximo, interiorizando e radicalizando as suas exigências: o amor ao próximo nasce de um coração que ama, e, precisamente porque ama, está disposto a viver as mais elevadas exigências. Jesus mostra que os Mandamentos não devem ser entendidos como um limite mínimo a não ultrapassar, mas antes, como uma estrada aberta para um caminho moral e espiritual de perfeição, cuja alma é o amor. (cf. Cl 3: 14). O próprio Jesus é o cumprimento vivo da Lei, visto que Ele realiza o seu significado autêntico com o dom total de si: Ele mesmo se torna Lei viva e pessoal que convida ao seu seguimento, e dá, mediante o Espírito, a graça de partilhar de sua própria vida e amor, e oferece a força para o testemunhar nas opções e nas obras. (cf. Jo 13: 34,35). Vivendo no Espírito, o homem percebe a urgência interior - uma verdadeira e própria necessidade, e não já uma imposição - de não se deter nas exigências mínimas da Lei, mas vivê-las em toda a sua plenitude.
Os Mandamentos e o convite de Jesus ao jovem estão a serviço de uma única e indivisível caridade, que espontaneamente tende à perfeição, cuja medida é só Deus: "Sede, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai celeste"(Mt 5: 48). O caminho e, simultaneamente, o conteúdo desta perfeição consiste no seguir Jesus, depois de ter renunciado aos próprios bens e a si mesmo. Esta é precisamente a conclusão do diálogo de Jesus com o jovem: "depois vem e segue-me". É um convite, cuja maravilhosa profundidade será plenamente compreendida pelos discípulos só depois da ressurreição de Cristo, quando o Espírito Santo os guiar para a verdade plena (cf. Jo 16: 13).É o próprio Jesus que toma a iniciativa, chamando para O seguir. O apelo é feito, antes de mais, àqueles a quem ele confia uma missão particular, a começar pelos Doze; mas vê-se claramente também que ser discípulo de Cristo é a condição de todo crente (cf. At 6: 1). Por isso, seguir Cristo é o fundamento essencial e original da moral cristã: como o povo de Israel seguia Deus que o conduzia no deserto rumo à Terra Prometida (cf. Ex 13: 21), assim o discípulo deve seguir Jesus, para o qual é atraído pelo próprio Pai. (cf. Jo 6: 44).
Aqui não se trata apenas de dispor-se a ouvir um ensinamento e de acolher na obediência um Mandamento. Trata-se, mais radicalmente, de aderir à própria pessoa de Cristo, de compartilhar a sua vida e o seu destino, de participar da sua obediência livre e amorosa à vontade do Pai. Seguindo, mediante a resposta da fé, Aquele que é a Sabedoria encarnada, o discípulo de Jesus torna-se verdadeiramente discípulo de Deus (cf. Jo 6: 45). De fato Jesus é a luz do mundo, a luz da vida (Jo 8: 32); é o pastor que guia e alimenta as ovelhas (Jo 10: 11-16); é o caminho, a verdade e a vida (Jo 14: 6); é aquele que conduz ao Pai, ao ponto que ao vê-lo a ele, o Filho, é ver o Pai (Jo 14: 6-10). Portanto imitar o Filho, a imagem do Deus invisível (Cl 1: 15), significa imitar o Pai.
Jesus pede para o seguir e imitar pelo caminho do amor, de um amor que se dá totalmente aos irmãos por amor de Deus: "O meu Mandamento é este: que vos ameis uns aos outros, como eu vos amei" (Jo 15: 12). Este "como" exige a imitação de Jesus, do seu amor, de que o lava-pés é sinal: "Se Eu vos lavei os pés, sendo Senhor e Mestre, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também" (Jo 13: 14,15). De fato, estas suas ações e, particularmente, a paixão e morte na cruz são a revelação viva de seu amor pelo Pai e pelos homens. É precisamente este amor que Jesus pede seja imitado por quantos o seguem. É por isto que todos saberão que sois meus discípulos: "se vos amardes uns aos outros" (Jo 13: 34,35). Depois de ter dito : "O meu Mandamento é este: que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei" (Jo 15: 12), Jesus prossegue com as palavras que indicam o dom sacrificial da sua vida na cruz, como testemunho de um amor "até o fim" ( Jo 13: 1): "Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos" (Jo 15: 13).
Seguir Cristo não é uma imitação exterior, já que atinge o homem na sua profunda interioridade. Ser discípulo de Jesus significa tornar-se conforme a Ele, que se fez servo até o dom de si sobre a cruz (cf. Fl 2: 5-8). Pela fé, Cristo habita no coração do crente (cf. Ef 3: 17), e assim o discípulo é assimilado ao seu Senhor e configurado com Ele. Isto é fruto da graça, da presença operante do Espírito Santo em nós. Inserido em Cristo, o cristão torna-se membro do seu Corpo, que é a Igreja (cf. 1 Cor 12: 13-27). Sob o influxo do Espírito, o Batismo configura radicalmente o fiel a Cristo no mistério pascal da morte e ressurreição, "reveste-o de Cristo" (cf. Gl 3: 27). Morto para o pecado, o batizado recebe a vida nova (cf. Rm 6: 3-11): vivendo para Deus em Jesus Cristo, é chamado a manifestar na vida os seus frutos (cf. Gl 5: 16-25).
Ao homem, não é possível imitar e reviver o amor de Cristo unicamente com as suas forças. Torna-se capaz deste amor somente em virtude de um dom recebido. Tal como o Senhor Jesus recebe o amor de seu Pai, assim Ele, por sua vez, comunica-o gratuitamente aos discípulos: "Como o Pai me amou, também eu vos amei; permanecei no meu amor" (Jo 15: 9). O dom de Cristo é o seu Espírito, cujo fruto primeiro é o amor (Gl 5: 22): "O amor de Deus foi derramado em nossos corações, pelo Espírito Santo, que nos foi concedido (Rm 5: 5). Aqui cabe a pergunta: É o amor que nos faz cumprir os Mandamentos, ou é a observância dos Mandamentos que faz nascer o amor? Quem pode por em dúvida que o amor precede a observância? Quem, de fato, não ama está privado de motivações para cumprir os Mandamentos.
A Lei do Espírito de vida em Cristo Jesus, libertou-nos da lei do pecado e da morte(Rm 8: 2). Com estas palavras, o apóstolo Paulo nos leva a considerar, na perspectiva da história da Salvação que se cumpre em Cristo, a relação entre a Lei (antiga) e a graça (nova Lei). Ele reconhece o papel pedagógico da Lei, a qual permitindo ao homem pecador medir a sua fraqueza e retirando-lhe a presunção de auto-suficiência, abre-o à invocação e ao acolhimento da vida no Espírito. Só nesta vida nova é possível a prática dos Mandamentos de Deus. Com efeito, é pela fé em Cristo que fomos justificados (cf. Rm 3: 28): a justiça que a Lei exige, mas não pode dar a ninguém, encontra-a o crente manifestada e concedida pelo Senhor Jesus. Portanto, a Lei foi dada para se invocar a graça; a graça foi dada para que se observasse a Lei. De fato, a Nova Lei não se contenta em dizer o que se deve fazer, mas dá também a força de praticar a verdade (cf. Jo 3: 21).
O amor e a vida segundo o Evangelho não podem ser pensados primariamente em termos de preceito, porque o que eles pedem supera as forças do homem: apenas são possíveis como fruto de um dom de Deus, que restaura, cura e transforma o coração do homem através de sua graça: Porque, se a Lei foi dada por meio de Moisés, a Graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo (Jo 1: 17). Por isso, a promessa de vida eterna está unida ao dom da Graça, e ao dom do Espírito que recebemos e já "penhor da nossa herança" (cf. Ef 1: 14).

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