Ciberlegenda Número 2, 1999 |
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Globalitarismo e dependência tecnológica Considerações sobre a transnacionalidade de uma crise |
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| . | Delfim Soares
Resumo: O Globalitarismo consiste num processo de colonização universal,
aprofundando o abismo entre ricos e pobres, metrópoles e colônias. As crises econômicas
do terceiro mundo são essencialmente crises coloniais. Os meios de massa são
subservientes instrumentos de manipulação nas mãos das metrópoles. As redes
cibernéticas, embora mais democráticas, não contribuem muito para a promoção da
igualdade, devido à exclusão econômica das populações coloniais.
Abstract: Globalitarism is a process of universal colonization, deepening the
abyss between rich and poor, metropolises and colonies. The third world economic crises
are essentially colonial crisis. The mass media are subservient manipulation instruments
to the metropolises. The cybernetic nets, although more democratic, don't contribute a lot
to the promotion of the equality, due to the colonial populations economic exclusion.
Palavras chave: Neocolonialismo, tecnologia, comunicação.
O neoliberalismo contemporâneo sacralizou a globalização. Esta está envolvida numa abrangência ideológica que vai do dogmatismo do mercado universal, passando pela democracia cosmopolita e pela vulgarização tecnológica até alcançar a massificação da informação. Trata-se de uma panacéia que explica todas as situações, justifica todos os fatos, resolve todos os problemas. Seria tudo muito simples se isso não passasse de mero discurso ideológico. Essa indumentária hodierna do capitalismo selvagem vem colorida por um discurso igualitário em escala planetária, mas não diverge da essência do sistema centralizado na exploração dos fracos pelos fortes ou, em outras palavras, das metrópoles burguesas sobre as periferias coloniais. Pretendo, tomando alguns fatos como referência, colocar ao léu a realidade latente que esse discurso tenta mascarar. Vamos constatar que a velha divisão do mundo entre ricos e pobres, dominadores e dominados, colonizadores e colonizados, encontrou um novo conceito de imperialismo: o globalitarismo. Em conseqüência da sacralidade deste novo dogma, talvez seja adequado, apesar de herético, falarmos de dois tipos de globalização: a das metrópoles ou da dominação e a das colônias ou da dependência. Metrópole global e colônia global Quando falamos de metrópoles e colônias, situamo-nos num contexto que ultrapassa a fachada dos velhos impérios coloniais; levantamos os véus ideológicos do folclore político que transfigurou velhas colônias em novos países, tanto mais ciosos de sua soberania quanto maior é sua dependência. Os velhos demagogos afirmarão que todos os países são interdependentes. O que não se costuma explicitar é que existem inúmeros graus de intensidade em tal dependência. O globalitarismo aprofunda o abismo entre ricos e pobres, radicalizando o neocolonialismo. O aumento de tal abismo pode situar-se tanto na estrutura de classes numa mesma sociedade, quanto entre sociedades ricas e sociedades pobres. A concentração da riqueza está na natureza do capitalismo que encontrou no dogma globalitário a justificação para a perpetuação da exploração da burguesia internacional sobre as classes inferiores de todo o mundo. Podemos pois falar da globalização da riqueza, restrita à minoria burguesa, e globalização da pobreza, em expansão nas áreas coloniais. A propósito desta situação, em 01/03/99, o IPEA expunha um dado horripilante sobre a economia brasileira: 27,5% da população economicamente ativa ganhava menos de 65 reais mensais: pela cotação desse dia, isso equivalia a 30,37 dólares. Uma das conseqüências naturais desta dependência transcolonial, globalizando preços e entrincheirando salários, costuma ser a transferência de desemprego das sociedades centrais para as periféricas, bem como a brutal expansão do subemprego nos países dependentes. O aviltamento das condições econômicas e sociais tem, portanto, fortes ingredientes transnacionais e está intimamente ligado à dependência tecnológica. Diferentemente do imperialismo tradicional, o globalitarismo mascara-se no disfarce da igualdade planetária. Sofrendo de ingenuidade sociológica, de subserviência econômica ou de conivência ideológica, políticos e meios de comunicação das colônias orquestradamente massificam o modelo colonial globalitário. A grande imprensa das sociedades periféricas, sendo mais realista que o rei, freqüentemente supera a das sociedades centrais neste processo globalitário. É um erro reduzir o processo globalitário de dominação colonial à ação do sistema financeiro internacional ou das empresas transnacionais ou, ainda, dos países desenvolvidos sobre os mais atrasados. Tem que se levar em conta o fato de a classe dominante não ter nacionalidade. O capital não tem bandeira: os donos da riqueza também não. Os países são meras delimitações geográficas. Atestando a concepção dos países como acidentes geográficos, perante a universalidade burguesa, está o surgimento de mercados comuns, cuja tendência é a formação de blocos econômicos, onde a nacionalidade restará como cultura folclórica ou artigo de museu. O exemplo mais marcante desta tendência é o da União Européia. Pode parecer uma grande transformação da Europa, mas representa apenas a realização de um ideal burguês transnacional: um projeto de globalização que tende a reproduzir-se mundo afora. Afirma a primazia da economia e da cultura da burguesia sobre os pieguismos nacionalistas disseminados entre as classes inferiores. Podemos dizer que a economia burguesa vai tirando algumas de suas máscaras, explicitando a política como mera função instrumental de dominação de classe. Quem determina os rumos da organização mundial é a burguesia, assumindo sua condição de classe universal. As elites que vivem nas colônias fazem parte dessa classe universal ou lhe são subservientes. Do mesmo modo, os indivíduos da classe média designados para administrar os Estados coloniais ou gerir sua ordem politico-econômica costumam agir como representantes e defensores dos interesses dessa burguesia transnacional. Não existe, portanto, nada de estranho no fato de tais elites coloniais fazerem sistematicamente o jogo dos colonizadores. A concentração da burguesia nas metrópoles faz convergir todos os processos socio-econômicos para a manutenção e aprofundamento do globalitarismo, ao mesmo tempo que aumenta a desigualdade entre ricos e pobres. Podemos dizer que esta concepção absolutista de mercado planetário mantém a essência do modelo capitalista e facilita simultaneamente a realização simbólica dos explorados numa escala transcolonial. Meios de massa neoliberais subservientes Os meios de comunicação de massa desempenham um papel crucial no globalitarismo. Em regimes fascistas declarados costuma estar bem evidenciado o caráter instrumental unilateral dos meios de comunicação a serviço do poder. O neoliberalismo tende a ser muito mais profundo, num processo mais sofisticado de manipulação. Mantendo um modelo envolvente de aparências democráticas, o novo sistema de comunicação de massa privilegia o discurso essencialmente ideológico, pela distorção, deturpação, omissão e cumplicidade, produzindo um estado de alienação social generalizado. Trata-se de um modelo de lavagem cerebral psicossocial cujos resultados diferem do fanatismo apenas pelo ilusionismo libertário que costuma ambientá-los. a importância deste processo não está apenas no fato de existir uma ordem mundial de informação, concentrando as grandes agências de notícias nas sociedades centrais e reproduzindo o modelo capitalista que divide o globo em dois blocos: o das metrópoles e o das colônias. Não é para levar a sério a gritaria queixosa dos países do terceiro mundo contra esta ordem e exigindo uma nova ordem de informação. Isto deve ser entendido como disfarce ideológico das elites das colônias para mascarar sua verdadeira função: a de interiorizar a dependência nos países de soberania folclórica que se concentram no bloco colonial. A gritaria nacionalista das elites econômicas e, principalmente, das elites políticas tem sido um sintoma crônico da entrega colonial e do aprofundamento da dependência. Na verdade, sua função sistêmica está no estímulo à ingenuidade sociológica e à inocência política das massas e atua como amortecedor doutrinal para a exploração colonial. Como todo o processo se sustenta na ambigüidade ideológica, os meios de comunicação são agentes indispensáveis ao modelo globalitário. É claro que fica mais evidente o papel imperialista dos meios de massa que atuam diretamente nos países dependentes, como ocorre no Brasil. Em geral trata-se de grupos empresariais que participam do poder econômico ou dele são agentes. Devido à promiscuidade existente nas relações político-econômicas e à subserviência dos meios de massa, é, muitas vezes, difícil estabelecer fronteiras entre os papéis exercidos pelos diversos tipos de elite. Em janeiro último, estando na Europa, mais uma vez pude sentir a realidade da existência desigual dos dois blocos. Os jornais, rádios e televisões européias raramente noticiam alguma coisa sobre as sociedades periféricas. A excepção mais freqüente ocorre quando interesses das metrópoles estão em jogo nessas periferias: guerras, epidemias, catástrofes, golpes de estado, crises financeiras etc. Em relação ao Brasil, cronicamente as notícias se limitam ao futebol e ao carnaval, - fenômenos culturais profundamente alienantes que fazem o mesmo papel do circo romano, como válvula de segurança social. Os meios de massa da Europa costumam ignorar o que se passa na sociedade brasileira. Alguns jornais brasileiros chegam com dois ou três dias de atraso a algumas cidades do velho continente. Nessa hora, a Internet se torna um aliado importante da imprensa e dos leitores, pois é a única forma de termos versões atualizadas dos jornais brasileiros ao nosso alcance, enquanto os jornais europeus ignoram quase tudo o que ocorre no Brasil, materializando a consciência da dubiedade e ambivalência globalitária. A dedução imediata que se faz é de que a globalização, como todos os modelos de dominação, não pode ser entendida como processo igualitário, pois tal conceito, levado a sério, afronta a natureza do capitalismo. Neste janeiro, algumas excepções ocorreram, em relação à marginalização crônica das periferias feita pela grande imprensa: a TV espanhola noticiava o crash brasileiro e suas conseqüências nas bolsas do resto do mundo; realçava o prejuízo da Telefônica que havia investido pesado nas privatizações do Brasil, o mesmo acontecendo com empresas do setor elétrico. A RTP repetia notícia de teor idêntico relativa à EDP e à Telecom de Portugal. A imprensa italiana também mencionava a crise brasileira. Quase sempre um fator comum: investimentos na privatização das telecomunicações brasileiras. A novela das privatizações do Brasil serve para ilustrar a ambigüidade globalitária. O patrimônio nacional foi comprado, a preço de banana, por grupos transnacionais, incluindo empresas estatais européias, fator que expunha o cinismo privatizante. Também consórcios nacionais participaram da liquidação. Uns e outros eram agentes globalitários. Em todos os casos, perderam as populações pobres: o imperialismo do lucro se impunha, sem máscaras acima do bem estar social; a transnacionalização da economia fortalecia o sistema globalitário, aprofundando a exploração dos povos do terceiro mundo para benefício das metrópoles. A grande imprensa difundia o furor privatizante e omitia sistematicamente a natureza colonialista desse processo. Algumas suspeitas de irregularidades foram levantadas, mas rapidamente esquecidas: afinal a verdadeira função sistêmica dos meios de massa era favorecer e fomentar a ação globalitária transnacional. Alguns ingênuos ainda perguntariam que tipo de ética estará norteando tais negócios e, principalmente, o comportamento da grande imprensa. Como resposta, Nietzsche explicaria o significado da moral dos senhores e da moral dos escravos. Negócio é negócio e ética é ética; e, para os céticos, não convém misturar as duas coisas. A TV francesa realçava a queda das bolsas originada na crise brasileira. Emissoras de outros países do norte da Europa e da América batiam na mesma tecla: os interesses da burguesia capitalista pareciam correr perigo, devido ao desarranjo da economia colonial. Será que a burguesia realmente corre perigo num sistema globalitário?! Apesar das manifestações preocupadas da grande imprensa do norte, não convém alimentar uma hipótese ingênua: a burguesia metropolitana estava tendo prejuízo com as crises coloniais. Em determinado dia a RTP noticiou: a Portugal Telecom acaba de ter um ganho de 145 bilhões de escudos ( cerca de 852 milhões de dólares), ao pagar adiantada ao governo brasileiro prestação da compra da Telesp Celular, devido à forte desvalorização do Real. Este caso serve para ilustrar a capacidade dos donos do poder econômico de sempre encontrarem um meio de tirar proveito da crise. A inversa é a seguinte: as classes inferiores e as sociedades periféricas sempre pagam o preço das crises. As crises que têm estourado nos países periféricos costumam vir acompanhadas da desvalorização de suas moedas. Tal fator tem-se transformado sistematicamente em causa de expansão da pobreza, pois reduz drasticamente a renda dos trabalhadores. Como há uma globalização crescente do mercado, internacionalizando preços, o fenômeno da desvalorização resulta sempre na concentração de riqueza e no crescimento do abismo entre países centrais e países periféricos. Mais uma uma falácia se constata: a globalização só vale para o capital, mas não para o trabalho. Na maior parte das crises que têm ocorrido nos países dependentes, as causas dominantes estão na perpetuação de uma economia colonial que tem como espinha dorsal a ação das empresas multinacionais e o sistema financeiro internacional, sendo o FMI o grande xerife do processo globalitário. A própria fragilidade das moedas dos países dependentes deve ser entendida neste contexto colonial. Está para todos claro que estas crises são conseqüências da globalização. Também é mais ou menos evidente que os especuladores internacionais estão na raiz dessas crises, numa espécie de conflito interno com a burguesia mais conservadora na dominação internacional. As Bolsas de Valores e a rede bancária colocaram a produção em segundo plano e optaram pela primazia da especulação financeira. O primado da especulação se espraia pelas sociedades periféricas como principal determinante das políticas econômicas, desembocando sistematicamente na recessão. O lado mais profundo da crise, no entanto, não foi explorado pelos jornais, rádios ou televisões. Nas metrópoles, por uma questão estratégica a fim de manter o véu igualitário da globalização, a grande imprensa costuma se omitir; nas colônias, por interesse de garantir a manipulação ideológica das populações exploradas, os meios de massa distraem as populações. O fulcro da questão está onde sempre esteve: na perpetuação da condição colonialista que, orquestrada globalmente, se torna cada vez mais profunda. Como a imprensa européia limitava seus noticiários sobre o Brasil a algumas pílulas informativas, passei a acessar diariamente, pela Internet, os jornais brasileiros. Mesmo tendo neles uma visão colonialista dominante, podia encontrar versões mais pormenorizadas e variadas sobre o desenrolar do estouro da crise da economia brasileira. A bem da verdade, em vez de falar no estouro, talvez seja mais apropriado falar da exposição pelos meios de massa de uma crise crônica. Ao mesmo tempo, recebia algumas mensagens de colegas do Brasil, por correio eletrônico, que me permitiam ultrapassar a versão dominante dos jornais brasileiros mergulhados em subserviência mais ou menos generalizada. De 13 de janeiro em diante, data em que começou a exposição da derrocada do Real, em mais uma afirmação repetida da natureza folclórica das moedas dos países dependentes, a Internet foi meu principal meio de informação sobre a evolução da visão da imprensa brasileira dominante, à cerca de mais esta crise colonialista. A distorção do problema tem sido uma constante. Bodes expiatórios têm sido execrados à opinião pública pela maioria dos meios de massa. Nenhum deles assume a verdadeira natureza da crise imperialista, nem mesmo quando os especuladores internacionais dispensam intermediários e assumem aberta e institucionalmente o controle e a manipulação da economia das colônias. Também não se costuma explorar o fato de todas as soluções para as crises dos países dependentes, controladas pelo FMI ou pelos governos locais, estarem primordialmente voltadas para atender os interesses das metrópoles ou de seus agentes que são as elites locais. A política globalizada do FMI consiste básicamente na atrofia e empobrecimento das populações das colônias e no conseqüente enriquecimento das elites locais e da burguesia metropolitana. Como solução satisfatória para o desenvolvimento e o bem estar social, a ação do FMI é sistematicamente um fracasso em todas as áreas coloniais. Mas, numa perspectiva globalitária, a serviço da concentração da riqueza, sempre são um sucesso. Quando as elites locais sacralizam todas as formas de exploração e dependência, encontram nos meios de massa arautos eficazes do novo evangelho globalitário: a máscara da igualdade universal favorece o aprofundamento da desigualdade, da injustiça e da degradação. Custos da tecnologia e dependência cibernética Diante da massificação manipulada, aponta-se, com freqüência, a Internet como alternativa democrática. Efetivamente, a infinidade de opções, combinada com as dificuldades de controle sobre a Internet, transformam as redes cibernéticas em meios muito mais democráticos do que os meios de massa. No entanto, se situarmos a Internet no contexto da globalização transcolonial, constataremos a precariedade democrática da rede. Talvez seja oportuno observar o fato de toda a grande imprensa estar criando e ocupando sites na rede, com suas versões eletrônicas. Certamente esta expansão não terá como principal objetivo difundir informação, se considerarmos o papel instrumental dos meios de comunicação em relação ao poder. Diremos que a Internet tem um imenso potencial democrático, no plano tecnológico que não encontra sustentação no plano socio-econômico da globalização das colônias. Recentemente, na Malásia, foi assinado um acordo internacional pela maioria dos países desenvolvidos. Dos países do terceiro mundo, alguns assinaram e outros rejeitaram. A representação do Brasil não assinou. Esse acordo estabeleceu isenção de impostos de importação para produtos de informática. O resultado prático é o barateamento de tais produtos nos países aderentes. Convém realçar que, embora tal barateamento atinja diretamente os produtos de informática, na verdade atinge toda a sociedade. Como a cibernética é uma área interdisciplinar global, o que nela acontece se reflete em todos os setores da ciência, tecnologia, pesquisa, educação, administração, comunicação etc. A cibernética constitui-se no sistema nervoso das sociedades modernas. A evolução cibernética tornou-se condição e ingrediente essencial para o desenvolvimento de qualquer sociedade hodierna. Sem ela não há crescimento tecnológico e sem este não há evolução social ou econômica nem possibilidade de emancipação das sociedades periféricas. Em outras palavras, restrições à tecnologia, nomeadamente no campo cibernético, são uma opção pela manutenção do status colonial. O Brasil, em mais uma manifestação de ambigüidade transacional, alegou a necessidade de proteger a indústria nacional. Quando tudo é dominado pelo capital transnacional e pela ação dos especuladores internacionais, aumenta a ambigüidade de tal rejeição. Discussões políticas à parte, essa rejeição do aordo resulta no fato de termos que gastar mais para adquirir tecnologia sofisticada, chegando ao cúmulo de pagarmos o dobro daquilo que se paga nos países desenvolvidos pelo mesmo produto, tendo nós uma renda que, em média, representa 10% da dos trabalhadores desses países: na prática, significa que temos um custo tecnológico vinte vezes superior. Quando se combina esse fator com a degradação da universidade pública, - responsável pela maior parte das pesquisas no país,- caminhando para a privatização total do ensino superior, a situação se agrava, pois não haverá esperança de produção científica e tecnológica, uma vez que, de modo geral, as universidades particulares não investem em pesquisa. Deste modo, além de aumentar a sucatização tecnológica do país, elimina-se o caminho para a emancipação científica e tecnológica em que pode constituir-se a pesquisa. É oportuno mencionar os pesados investimentos feitos em pesquisa nas sociedades centrais frente à insignificância de recursos aplicados pelas sociedades periféricas. Está nesta diferença a principal raiz da supremacia tecnológica que determina a dominação econômica. Não tendo tecnologia própria, impedidos de produzi-la, pela atrofia da pesquisa, ou de adquirir tecnologia importada, devido a seu alto custo estaremos ciberneticamente ilhados, perpetuando nossa condição colonial. Também não se pode apenas encarar o potencial tecnológico dos meios de informação: é preciso enquadrá-lo na realidade socio-econômica das populações. Efetivamente, democracia, como real vivência política, é um delírio para multidões morrendo de fome. Informação democrática é devaneio quando não se tem tem acesso às tecnologias de informação. A Internet será um meio democrático quando as pessoas tiverem os recursos necessários de acessá-la, adquirindo e difundindo informação. Se compararmos o número de usuários da Internet com o total da população, encontramos uma minoria. Se observarmos o número de home pages, trata-se de uma gota de água no oceano. Estamos, portanto, falando de potencial democrático e não propriamente de democracia. Parece estar longe a perspectiva consumista globalizante projetando-se na criação e na expansão dos mercados coloniais ou periféricos. Manifestando uma certa contradição dentro do capitalismo consumista, o sistema, por enquanto, parece ter optado por fortalecer mercados seletivos, atrofiando o mercado periférico. Essa mesma antinomia consumista pode ser observada nos mercados das novas tecnologias da informação. No começo de janeiro circulou, por correio eletrônico, uma corrente convidando para uma greve na Internet no Brasil no dia 13 do mesmo mês, como protesto pelos altos preços cobrados pelos provedores brasileiros, em comparação com os norte-americanos, pelo acesso à rede. Em seguida, recebi de meu provedor uma mensagem contrária à greve: "Resolvi mandar essa mensagem para a INFO porque recebi muitos e-mails perguntando sobre a tão falada 'greve' na Internet.Em primeiro lugar, a idéia da greve pode até ser boa, mas está sendo mal conduzida. Os preços de acesso no Brasil NÃO podem ser iguais aos dos EUA por quatro motivos básicos: - - Os circuitos de dados (Embratel) que ligam os provedores à rede Internet são dezenas de vezes mais caros. Nos EUA um circuito 1.5 mbps custa U$2.000,00. Aqui, um circuito de 128 Kbps custa isso (ou seja, um circuito + de 10 vezes menor) (Só o imposto sobre telecomunicações é de 37%). - - Os equipamentos utilizados pelos provedores são 3 a 4 vezes mais caros (impostos, etc, etc, etc). - - As Teles cobram valores muito altos pelos serviços de telefonia, tanto para provedores, como para outros assinantes. - - as Teles não provêm com a rapidez necessária os recursos para o crescimento dos provedores." Temos aqui um exemplo claro dos problemas de custos da tecnologia para uso da Internet. Como agravante, talvez seja conveniente lembrar que tal desproporção foi calculada quando um dólar representava 1,2 reais; em 01/03/99, 1 dólar representava 2,14 reais. A desproporção apontada pelo provedor agravou-se em cerca de 78%, no espaço de um mês e meio. Parece haver uma perversa proporção inversa entre poder aquisitivo e acesso à tecnologia. Nesta inversão encontramos o ponto onde se cruzam as tecnologias de informação com a natureza transcolonial da globalização. Talvez devamos levantar a hipótese de o sistema globalitário estar pressupondo a conveniência ou a necessidade da dependência cibernética para fortalecer o modelo transcolonial. Como não há ingenuidade no sistema, podemos dizer que se trata de mais uma perversão natural do globalitarismo. Temos sérias dúvidas sobre a verdadeira natureza dos meios de comunicação: muito mais do que informar eles manipulam, deformando. As novas tecnologias de informação, dentro das quais a Internet representa um papel central, objetivam realmente promover a informação? No plano da globalização das colônias, parece uma hipótese bastante remota. Talvez seja bom lembrar que a escrita tem milhares de anos e que a imprensa existe desde o século XVI. Apesar disso, uma boa parte da humanidade ainda é analfabeta. Não estarão as novas tecnologias de informação destinadas a exclusão semelhante? A marginalização econômica das populações do terceiro mundo é causa e sintoma claro do devaneio democrático que prolifera nalgumas sociedades coloniais. A decorrente exclusão tecnológica reduz a Internet a uma rede de comunicações potencialmente global. Essa rede seria o mais eficaz meio de globalização da informação encontrado até hoje, se não considerássemos as condições econômicas degradantes das periferias e sua raiz sistêmica excludente. Ou melhor, ela realiza a globalização das metrópoles. A globalização das colônias limita-se aos meios de massa e dificilmente poderá ser classificada como ação informativa. Não deve ter-se muitas ilusões sobre possíveis diferenças de conteúdo informativo entre meios de massa e redes cibernéticas. Como os objetivos globalitários são essencialmente os mesmos em ambos os processos, com freqüência, meios de comunicação são transformados em barreiras à informação.
Neoliberalismo, neocolonialismo e globalitarismo são três conceitos idênticos. Lembrando McLuhan e Nietzsche, talvez possamos afirmar que a evolução dos meios de massa e das redes cibernéticas estão criando duas grandes aldeias globais: a dos senhores, no centro do sistema capitalista e a dos escravos, na periferia colonial. Estas duas aldeias têm interesses divergentes: uma empobrece para enriquecer a outra. Mas nas duas há a mesma religião baseada na igualdade planetária: todos consomem igualmente. Entre a satisfação material e a realização simbólica, senhores e escravos proclamam a sacralidade global... Alienação é isso mesmo... Delfim Soares é sociólogo, doutor em Filosofia e professor de Sociocibernética e Comunicação no Mestrado em Comunicação, Imagem e Informação da UFF. |
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