Ciberlegenda Número 1, 1998 |
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| Ciberhumanismo ou cibercracia | |||||
| . | Delfim Soares
Resumo: Análise da ambivalência do binômio humanismo/cibernética. Faz-se uma abordagem comparativa entre modelos culturais conservadores e a cibercultura, projetando o cibernantropo num sistema cibercrático. Uma linha evolutiva, passando pelo robô e pelo andróide conduz à biocibernética e é coroada pela concretização do pneumamecanismo ou inteligência artificial autoconsciente. Transmutações sociais, determinadas pela evolução tecnológica, colocam a sociedade numa aldeia planetária onde ciberhumanismo e cibercracia se fundem.
Abstract: (Cyberhumanism or cybercracy?) Ambivalence analysis of the binomial humanism/cybernetics. A comparative approach between conservative cultural models and the cyberculture, projecting the cyberanthrope in a cybercratic system. An evolutionary line, going by the robot and the android, it drives to the biocybernetics and it is crowned by the pneumamechanism materialization - the artificial autoconscious intelligence. Social transmutations, determined by the technological evolution, place the society in a planetary village where cyberhumanism and cybercracy are founded. Palavras chave: Sociocibernética; ciberhumanismo; cibercracia.
Pretendo fazer algumas considerações sobre o aparente antagonismo que pode ser sugerido por perspectivas conservadoras sobre a dicotomia explícita neste título. Dando prevalência à observação sociológica e secundarizando posicionamentos axiológicos, prefiro situar a questão num contexto de ambigüidade epistemológica e de ambivalência interpretativa. Não me parece adequado alimentar qualquer tipo de polêmica contrapondo modelos de realização humana ao incremento da automação tecnológica; do mesmo modo, não tem sentido criar uma rivalidade hipotética entre a evolução do homem e a instauração de uma sociedade centrada em aparatos de inteligência artificial. As freqüentes explorações da ficção científica, transformando esta ambivalência em guerra entre o homem e a máquina, apenas encobrem uma forma mal disfarçada de tentativa de perpetuar um modelo de organização perturbado pela irracionalidade, contaminado pela emotividade neurótica, reproduzindo tais distúrbios num sistema de inteligência artificial. Trata-se de uma aberração da inteligência emocional, projetada e refletida num sistema sociocibernético, ignorando a reestruturação social que a revolução cibernética está realizando. A superação de um sistema de dominação centrado na exploração das necessidades por outro modelo voltado para a expansão da satisfação e, ao mesmo tempo, a substituição do controle de bases emocionais pela logicidade da inteligência artificial criam as condições para a instauração da cibercracia. Não se trata de nenhum sistema totalitário engendrado pela inteligência artificial, mas de uma organização racional e lógica de controle cibernético, deixando ao homem condições mais reais, justas e igualitárias de realização. É neste sentido que coloco a ambivalência não como dicotomia contraditória mas como forma ideal de ciberhumanismo: convivência harmoniosa e necessária de um sistema sociocibernético controlado pela inteligência artificial com a liberação do homem e a viabilização de sua satisfação.
Rumo à cibercultura À luz do desenvolvimento científico e técnico, o humanismo dominante nas sociedades tradicionais está claramente ultrapassado. Trata-se de um humanismo espiritualista e intelectualista, numa perspectiva filosófica generalizante em que o homem não é encarado como indivíduo concreto mas como natureza humana. Dominada por um sistema de valores mais ou menos sentimental, a concepção do homem tradicional se choca frontalmente com o novo tipo de humanismo que se instaura nas sociedades pós-industriais: um humanismo materialista e tecnocrata. O homem, como animal, sofre alterações muito lentas na perspectiva da evolução, não havendo diferenças significativas entre o homem da sociedade pré-industrial e o homem da sociedade tecnológica. No plano da estruturação psíquica, interiorização social ou vivência axiológica, houve profundas transformações. Conseqüência natural dessa mudança é o caráter obsoleto do homem sentimental, narcisista, espiritualista, escravo do passado. Também estão ultrapassados os movimentos de retorno saudosista ou de repúdio do desenvolvimento tecnológico bem como as tentativas de ressurreição do sentimentalismo. O novo modelo de homem se volta sobre si mesmo, buscando sua satisfação material. Um novo sistema de valores, mais objetivo e mais realista se instaura situando o novo humanismo numa perspectiva existencial mais concreta e individualista. O modelo tradicional, objeto da antropologia retrógrada, se arrasta como artigo de museu, dentro da nova sociedade. Esse espécime, prestes a transformar-se num fóssil da nova pré-história, - a era pré-tecnológica ou pré-cibernética, está em fase de extinção. Trata-se de um novo primata nesta nova era da evolução: uma nova espécie está surgindo. É o cibernantropo. Filosofia, crítica, religião, pieguismo sentimental, sublimação ideológica das necessidades humanas formam um quadro de agonia. O velho homem, configurado pelo obsoleto, doutrinado e sublimado, transforma-se num marginal da cultura cibernética. Antropocêntrico e megalomaníaco, atribuindo-se o clímax da evolução e a perfeição do conhecimento, resta como motivo de ironia diante dos avanços da ciência e da tecnologia. É sobejamente conhecida a correlação existente entre o desenvolvimento tecnológico e o empobrecimento ambiental. As doenças da civilização tecnológica se alastram. São os distúrbios provocados pela poluição e pela radiação, o aumento das doenças cardíacas geradas na agitação da industrialização; generalizam-se as neuroses provocadas pelo stress das megalópoles. Numa fase de transição, com o desenvolvimento descontrolado e sujeito à manipulação irracional do homem, criaram-se problemas tão sérios para a existência humana que freqüentemente se levanta a hipótese da total perda de condições de sobrevivência da própria espécie neste planeta. Efetivamente, o caráter predatório da besta humana supera todas as outras espécies. No entanto, a mesma ciência e técnica que foi usada para gerar esses problemas pode ser utilizada para encontrar as soluções adequadas para resolvê-los. À medida em que os centros de decisão da organização social passam para o controle mecânico e os geradores humanos são substituídos por máquinas inteligentes a possibilidade de comportamento decisório irracional torna-se extremamente remota, ao contrário do que acontece rotineiramente nas sociedades cujos sistemas são controlados e perturbados emocionalmente pelo homem. A partir do momento em que a organização social passa a ser regulada por mecanismos lógicos, é provável que sejam garantidas as condições ecológicas e se eliminem os predadores inoportunos. É fundamental que, para se garantir o equilíbrio ecológico, o homem, - animal emocional, - seja afastado do comando do sistema e condicionado a executar decisões mecânicas regidas pela eficiência e pela lógica. O atual desequilíbrio social resulta do predomínio emocional sobre o comportamento humano. A hipertrofia predatória do homem não tem origem animal mas social, nas organizações caricaturais das sociedades tradicionais. Reduzido o homem à esfera animal e condicionado mecanicamente para o comportamento racional, o equilíbrio ecológico está praticamente garantido. Tal processo, porém, só é possível numa sociedade dominada por um sistema de inteligência artificial, em que a lógica prevaleça permanentemente sobre a axiologia e a ideologia. O homem primitivo desconhecia o conjunto de atividades que a moderna economia classifica como trabalho. Quando a saturação demográfica gerou a necessidade do trabalho e se afirmou a lei do mais forte, a espécie humana se dividiu em escravos e homens livres, trabalhando os primeiros para garantir o bem-estar dos segundos. A história nos mostra que os homens que exerceram a dominação social sempre tiveram aversão pelo trabalho e, em muitas épocas, proclamaram o trabalho com infâmia e função animalesca que degradava o homem, social e intelectualmente. Quando a revolução industrial determinou a abolição nominal da escravatura, como forma de estimular a produção, aprofundando ainda mais a exploração do homem pelo homem, tornou-se necessária uma campanha doutrinal, no plano internacional, para eliminar, nas classes trabalhadoras, os aspectos pejorativos e degradantes ligados ao trabalho. A nova mentalidade elimina a infâmia e a degradação, instrumentalizando o trabalho como realização humana e social. É claro que tal receita ideológica, elaborada e determinada pela elite, jamais foi vivida ou existencialmente introjetada pelas classes superiores. A revolução pós-industrial, produzindo a divisão mecânica do trabalho, em paralelo à divisão social do trabalho provocada pela revolução industrial, gerou alterações substanciais no sistema de produção e nas demais atividades. A automação do sistema provocou a criação diversificada de novos setores de atividade; trata-se de uma fase intermediária entre a exploração do trabalho humano e de sua eliminação. Atingimos, com a tecnologia, um estágio da evolução social em que a aversão pelo trabalho não é apenas uma imposição da natureza biológica ou da cultura da elite. Na sociedade cibernética, tal aversão resulta também de uma nova força social: a automação. Esta prescinde do trabalho humano, porque este é ineficiente e desorganizado pelas emoções; simultaneamente a função produtora do homem é substituída pela ação consumidora. Pela primeira vez, na história da civilização, o interesse básico do sistema coincide com o anseio mais profundo das massas, quando se evidencia a conveniência social de eliminar o trabalho humano. O sistema quer livrar-se de sua inoperância ao mesmo tempo que o homem quer deixar de ser besta de carga. A nova dialética não se situa entre o trabalho e a necessidade, mas entre o lazer e a satisfação. Esta nova realidade finalmente liberta o homem de uma profunda neurose de origem ideológica: a necessidade psicológica do trabalho. Vários tipos de humanismo que têm surgido na história acentuam o valor da solidariedade, da disponibilidade, do altruísmo e da fraternidade. Todos condenam o egoísmo exacerbado, o individualismo solitário e a ambição desmedida. Há mesmo aqueles que pregam o amor pelos outros, desinteressado e abnegado, como forma ideal de realização humana. É patente o caráter societário que domina a cultura tradicional, onde se observa um esforço permanente no sentido de anular os exageros do egoísmo e da ambição, estimulando, pelo condicionamento social, as forças altruístas que são inerentes ao sistema de valores tradicionais. Todos os movimentos altruístas, por motivos filosóficos, políticos ou religiosos, têm tido êxito pouco significativo, ao tentarem eliminar ou reduzir forças naturais de referência egocêntrica. O cibernantropo, refletindo uma estrutura e comportamento mecânicos, não alimente valores altruístas ou solidários; sua sociabilidade é, antes de tudo, funcional; suas relações com os outros se inserem no plano da organização sistêmica; os outros também não têm significação pessoal, mas funcional. O novo homem é realizado na impessoalidade da organização e na auto-consciência funcional. Do convívio humano das sociedades tradicionais, passando pela despersonalização da massificação industrial, o homem chegou ao ensimesmamento psíquico e ontológico. Sendo os homens reduzidos à condição essencial de elementos sistêmicos ou engrenagens num conjunto mecânico, sua existência voltada para os outros, em disponibilidade afetiva ou colaboração altruísta, não tem significado. O retorno existencial do homem sobre si mesmo reúne uma configuração biológica à determinação sociocibernética, fisicamente individualizante. Embora aumentem a complexidade social, a aglomeração populacional e a massificação, o crescimento das relações interpessoais é uma hipótese irreal; ao contrário, generalizam-se as relações formais e impessoais. No meio da massa, o cibernantropo tende a fechar-se em seu casulo, voltado para suas necessidades e vivendo apenas funcionalmente para a sociedade, no plano da organização sistêmica. Vive só, num plano existencial cada vez mais restrito. É cidadão do mundo, pela universalização cultural, mas seu campo de interesses existenciais reduz-se ao momento e ao lugar presentes à consciência programada para o cibernantropo. O desenvolvimento tecnológico, culminando com a instauração do sistema sociocibernético, leva a uma nova concepção humanista, de natureza materialista. O ambiente sentimental que envolve a socialização e as relações humanas, nas sociedades tradicionais, tende a modificar-se no sentido da racionalidade e da objetividade. Quando se analisa a natureza e a origem dos sentimentos humanos, constata-se seu caráter sociocultural ou psicossocial, Nalguns desses sentimentos, dificilmente se encontra uma origem biológica ou natural, tratando-se de mecanismos socioculturais interiorizados e instrumentalizados a serviço da manipulação social. O sentimentalismo é, pois, uma exploração social da emotividade a serviço do controle, nas sociedades primitivas. A promoção da eficiência, num sistema organizado macanicamente, leva à desvalorização da emotividade e gera uma natural dificuldade para a manutenção ou perpetuação do modelo anacrônico baseado nos sentimentos. Paralelamente à instauração do domínio cibernético, purificam-se as emoções humanas, reduzindo-as ao plano meramente animal. Embora as forças instintivas possam acidentalmente opor-se à racionalidade lógica ou à eficiência mecânica, sendo naturais, estão mais próximas da logicidade do que as perturbações emocionais, normalmente chamadas de sentimentos. O cibernantropo não enfraquece necessariamente sua capacidade de sentir como animal, mas sua emotividade, determinada sentimentalmente pela cultura do passado, é atrofiada. O meio que envolve o homem, na sociedade cibernética, aboliu os mecanismos culturais e axiológicos que estimulavam o sentimentalismo. As novas formas de condicionamento tendem a prescindir desse tipo de exploração psicossocial. Molda-se o cibernantropo na abundância material, abolindo as carências que neuroticamente acirravam os sentimentos; mecaniza-se a organização social e seus reflexos no comportamento aproximam-se do determinismo; a cultura de consumo está interessada em ajustar o homem, como número ou peça de uma máquina, aos padrões do novo sistema. O que se espera de uma máquina não é que sinta mas que funcione. O cibernantropo, produzido à imagem da máquina, é criado para funcionar e não para viver uma neurose permanente, com acontece com o homem pré-tecnológico. Quando a velha filosofia grega estabeleceu a dicotomia entre animalidade e racionalidade, não objetivava propriamente uma distinção entre o animal natural e o animal racional, mas entre e emocional e o lógico. A história do racionalismo filosófico posiciona a razão humana lutando ora contra a animalidade e a emotividade ora contra a autoridade. Chegou-se mesmo a deificar a razão. A sociedade pós-industrial avançada, gerida a partir de um centro de inteligência artificial, logicamente regulado, efetiva a racionalização da organização social e do comportamento individual. A substancial alteração provocada no sistema de valores, - substituindo-se os valores morais por princípios lógicos, - viabiliza a padronização sistêmica. O amadorismo empírico, que inspira os caricaturais modelos de organização política e jurídica das sociedades pré-industriais, dá lugar à ciência da organização, onde a matemática e a lógica servem de base para as novas relações sociais. Combina-se a frágil logicidade da natureza animal instintiva com o recondicionamento cibernético, matematicamente determinado. Quando colocamos em dúvida o caráter natural da sociabilidade humana e da racionalidade, questionamos um valor sagrado das sociedades tradicionais. Ao ser condicionado ou recondicionado pelos novos recursos técnicos, num processo de engenharia comportamental, o homem adquire uma sociabilidade orgânica. Não é um ser social como pessoa ou indivíduo personalizado; é social por fazer parte do organismo social e nele interagir com outros elementos, humanos ou mecânicos, na integração do novo sistema social. É racional não porque possuía exclusividade da inteligência, da reflexão e do raciocínio; sua racionalidade é cognitiva e ativa, intelectual e comportamental, externa, - na sua origem mecânica, através do condicionamento, - e interna, - pela interiorização do processo de organização lógica do conhecimento e dos mecanismos de controle comportamental. Evidencia-se o fato de o pensamento ou a ação racional não se originar na mente do homem, mas no centro do sistema organizacional cibernético. Trata-se, pois, de uma racionalidade adquirida pelo processo de sociocibernação; tal aquisição só se verifica satisfatoriamente com o desaparecimento do velho homem e sua substituição pelo cibernantropo. Esta mutação é uma conseqüência natural do processo evolutivo determinado pelo sistema cibernético. Entre o robô e o andróide Podemos apontar dois níveis da automação. O primeiro acompanha a revolução industrial, modificando o sistema de produção pela introdução das máquinas ao lado do trabalho humano. Essa mudança visa aumentar a eficiência da produção, substituindo o esforço físico do homem pela energia mecânica. À medida que a sociedade se industrializa e se verifica a conveniência da tecnicização do sistema de produção, o homem vai vendo diminuída a necessidade de seu trabalho não só manual mas também intelectual, com a introdução da computação nos quadros empresariais. Lentamente, a força de trabalho vai sendo orientada para novos setores de atividade, ao mesmo tempo que se reduzem significativamente a jornada de trabalho e o tempo de serviço por vida individual. Este processo força a criação de atividades terciárias e a ampliação do tempo livre que poderá ser aproveitado para o lazer ou nalguma atividade criativa. A rotina do trabalho industrial vai sendo reduzida, pelo menos, no que se refere à sua duração. Quanto menor a participação do trabalho humano no sistema de produção, mais vantajoso se torna o processo, sendo economicamente ideal um sistema totalmente mecanizado. A automação ultrapassa os limites da produção e se estende a quase todas as áreas da atividade humana. Esta expulsão do homem pelo sistema de produção, jogando-o de um setor para outro, provoca uma inversão significativa nos critérios de valorização humana e nos padrões de referência para a realização do homem. A mentalização ideológica de dignificação do trabalho perde o sentido: é preciso condicionar o homem a procurar sua realização fora do trabalho. O segundo grau de automação se refere à autonomia dos organismos mecânicos, principalmente os autosuficientes, possuidores de inteligência artificial e auto-reprodutores em escala industrial. A suficiência material e intelectual das máquinas mais aperfeiçoadas, bem como sua auto-reprodução constitui-se num passo decisivo para a emancipação da máquina do domínio do homem; neste estágio começa uma nova civilização, uma nova era: a era cibernética. Diante dela, a história pouco se diferencia da pré-história. Existem dois tipos básicos de semelhanças entre o homem e a máquina: o físico e a inteligência. Muitos supervalorizam a semelhança física, considerando robô a máquina-boneco que consegue executar os movimentos externos do homem e simular as expressões de seu funcionamento orgânico. Esta perspectiva pode representar um verdadeiro desperdício, ao investir-se na simulação das funções inferiores do homem. A verdadeira e importante semelhança está no plano intelectual, ao produzir-se a inteligência artificial, mesmo que ela se localiza numa máquina cúbica ou cilíndrica, sem nenhuma semelhança física com o corpo humano. O robô autêntico é a máquina inteligente. É na sua criação que se encontra o passo mais importante dado pela ciência e pela tecnologia. O conjunto de mutações sociais que advêm dessa criação é incalculável e imprevisível; os mais conservadores consideram-no assustador e chegam a negar, emocionalmente, a possibilidade da inteligência artificial, - ainda mais quando se trata de uma faculdade imensamente superior à do homem. Podemos apontar dois níveis fundamentais da robotização. No plano mecânico, quando referimos o uso crescente das máquinas inteligentes no exercício das atividades mais variadas, que vão desde a gerência empresarial até os serviços domésticos. A principal função da robotização é, inicialmente, a substituição do esforço físico do homem e, numa segunda fase, a redução do esforço intelectual. No plano humano, a robotização significa o condicionamento ou recondicionamento psicossocial que objetiva a mecanização das estruturas mentais e comportamentais do homem, automatizando suas decisões. O termo é sinônimo parcial de sociocibernação; a robotização se processa a partir dos elementos mecânicos geradores ou emissores do novo sistema, determinando o modo de ser, agir e pensar do cibernantropo. Este novo homem não é uma máquina, na sua estrutura fisiológica, mas no seu psiquismo, em sua estrutura interna, no seu novo ego, idêntico à máquina. Seu modelo socializador, seus quadros de referência, as molas de sua motivação não são mais resultado da transferência da socialização efetuada pelo homem, mas de uma ligação cognitiva com a inteligência artificial e do estabelecimento de uma dependência existencial, baseada na necessidade imperativa da ação lógica. A nova sociedade não precisa mais estimular tensões e conflitos internos para acionar ou manter os mecanismos de controle social. A mecanização comportamental é bastante eficiente para garantir a organização. Aplicando a metáfora do Génesis à criação do homem, pode-se dizer que o homem criou a máquina à sua imagem e semelhança, no campo da cibernética. Podemos apontar dois tipos básicos de semelhanças: a aparência física e a aparência intelectual. No campo da aparência, a técnica atingiu tal perfeição que consegue reproduzir não apenas a forma física humana e seus movimentos mecânicos mas também todos os sentidos e funcionamento orgânico podem ser tecnicamente simulados: poderíamos falar aqui de um organismo artificial. O dado mais importante, porém, está na criação da inteligência artificial. O sistema nervoso, bem como a estrutura celular do cérebro que produz a inteligência são substituídos por conjuntos eletrônicos que não só acolhem e conservam o conhecimento mas também o produzem, elaboram e reelaboram. O surgimento da máquina inteligente, de que é protótipo o computador, significa um salto dialético na evolução da humanidade e não apenas na evolução da ciência e da tecnologia. Há muita gente que, dominada pela esclerose cultural e abismada em sua impotência intelectual, frente às possibilidades quase infinitas do pensamento artificial, resiste ao conceito de inteligência eletrônica. Existe ainda o complexo de inferioridade invertido, manifesto na pretensão da exclusividade da inteligência humana. Agrava-se esta cegueira na reafirmação de um sofisma metafísico: o de que o criado (a máquina) não pode superar seu criador (o homem). Tal sofisma que, a ser verdadeiro, significaria a impossibilidade do progresso e da evolução, gera uma miopia intelectual extremamente ampla. Devido à sua superioridade na eficiência, na inteligência e na atividade, os andróides tendem a transitar do exercício de funções subalternas para atividades centrais, começando a dominar os órgãos de decisão e gestão empresarial. O sistema econômico é o primeiro a ser dominado pelas máquinas inteligentes; a tendência é a expansão da ação destas máquinas a todos os outros campos da organização social. Não se trata propriamente de uma concorrência entre o homem e o andróide, mas da transferência do trabalho para a máquina, deixando o homem livre para o lazer. A propósito, convém realçar que a semelhança mais importante entre o homem e o andróide é a capacidade intelectual e não a aparência física. Os neurônios do homem são substituídos por circuitos eletrônicos que podem atingir uma capacidade intelectual milhões de vezes superior à humana, num procedimento lógico permanente, contrastando com as constantes perturbações emocionais características do homem.
Do homo machinalis à inteligência artificial consciente O objeto da mecanopedagogia não é apenas a criança, - como sugere a etimologia, - mas o homem e deveria mais adequadamente chamar-se mecanoandragogia. Os agentes tradicionais da educação, - pais, professores, pedagogos, - são substituídos pelas máquinas educadoras; as instituições tradicionais de ensino e educação, - escola, família, igreja, - são substituídas pelas redes de comunicação, como agentes centrais da nova educação. Apesar dos obstáculos ideológicos, - conservadorismo, psicologismo, criativismo, espiritualismo, - todos conjugados no mesmo esforço para impedir o desenvolvimento da ciência e da técnica, a automação da educação é um fato inevitável; apesar dos obstáculos econômicos, produzidos pelos grupos de interesse que exploram a educação como mercadoria e dos profissionais da educação que temem perder seu meio de vida, com a automação do sistema educacional; apesar da irracionalidade humana que domina a educação, preferindo os meios e métodos mais anacrônicos e ineficientes; apesar de tudo isso o modelo educacional não terá condições de resistir indefinidamente à automação crescente que se verifica em quase todas as áreas da atividade e da organização social. A automação da educação, - processo muito tardio, uma vez que o modelo educacional ainda se encontra num estágio idêntico ao do início da revolução industrial, - está-se tornando uma necessidade imposta por fatores de várias ordens: a inoperância do homem em todas as atividades, incluindo a educação; a incapacidade intelectual do homem para abarcar o conhecimento que se multiplica em proporções muito superiores ao desenvolvimento da inteligência humana; a fragilidade da ação humana, no plano do condicionamento social; a busca generalizada do lazer e do prazer, tornando desnecessário o trabalho humano em todas as áreas, incluindo a educação; a necessidade de o sistema sociocibernético dominar mecanicamente todos os setores importantes da organização e da manipulação social; a necessidade de se criar e generalizar o comportamento racional, de natureza lógica e alheio às perturbações emocionais, tão freqüentes nas sociedades pré-tecnológicas. Estas e outras razões mostram quão inevitável é a automação da educação, embora ainda não se possa predeterminar com exatidão o prazo para a instauração generalizada da mecanopedagogia, eliminando o primitivismo pedagógico que contamina os modelos tradicionais. Ao nível biológico, o homem pode ser considerado como máquina; não se trata de um conjunto de mecanismos criados pela indústria, mas isso não elimina a natureza mecânica do homem, bem como as semelhanças entre a máquina industrial e a biológica. Sob este prisma, tanto o homem primitivo quanto o cibernantropo são máquinas. A inovação introduzida pela tecnologia cibernética pode situar-se em dois planos: na estrutura física do homem, - estabelecendo a simbiose da máquina biológica com a máquina industrial, através da biônica, inserindo e substituindo órgãos naturais por mecanismos artificiais; ou, então, na estrutura psicossocial do indivíduo, - recondicionando-o dentro do novo sistema de valores, com polarização cibernética. Estas duas formas de reestruturação da espécie humana se completam no aperfeiçoamento da manipulação. Os bancos de órgãos naturais e, mais ainda, os estoques de mecanismos artificiais se vulgarizam, como lojas de peças; os centros cirúrgicos se transformam em oficinas e os médicos em engenheiros biomecânicos; quando um órgão enguiça, joga-se fora e substitui-se. A alimentação bio-energética dessa nova máquina passa a ser medida, quantificada e qualificada. Em relação aos mecanismos da estrutura psicossocial, o serviço de manutenção já se encontra em pleno funcionamento. As redes de comunicação de massa, a indústria cultural, a avalanche de propaganda são algumas das formas universais de manutenção do psiquismo mecânico do cibernantropo. A organização econômica e sociopolítica é envolvida pela eletrônica; a cultura, a moralidade e o sentimentalismo são reduzidos à logicidade; a emotividade cede o lugar à racionalidade. A subjetividade, ilusão inerente aos valores tradicionais, dá lugar à transubjetividade axiológica, onde os objetivos sociais são inteiramente assumidos e subjetivamente vividos; o novo modelo sociocibernético é introjetado em todos os indivíduos. O resultado é a criação do homo machinalis que, por natureza, construção e condicionamento, é realmente uma máquina, com componentes biológicos, mecanismos eletrônicos e determinantes sociocibernéticos. Na evolução dos agentes de educação, encontramos várias mudanças significativas que vão desde o homem comum, tecnicamente despreparado, até as máquinas educadoras, mais eficientes e capazes do que qualquer educador humano. A mecanodidática se situa no plano puramente mecânico, concebendo máquinas que aprendem de outras máquinas ou de homens; pode também definir-se como forma automatizada do ensino-aprendizagem humano, sendo as máquinas inteligentes auxiliares, colaboradores ou gerentes do processo. A aprendizagem efetuada pelas máquinas é naturalmente diferente da aprendizagem humana. Ela se processa eletronicamente, sem os vícios e obstáculos que costumam atrapalhar a aprendizagem humana. O desnível entre estes dois processos se aprofunda não só devido à capacidade, mas também devido à facilidade da transmissão eletrônica do conhecimento, de máquina para máquina. Quando referimos a aprendizagem humana, feita através de máquinas, ou citamos as máquinas de ensino, estamos descrevendo um novo modelo de ensino, onde a máquina inteligente desempenha o papel principal, mesmo que o educando seja o homem. Neste processo, o homem aprende da máquina, quer naturalmente, usando os sentidos para captar a informação das máquinas, quer eletronicamente, recebendo o esmo conhecimento por infusão direta do cérebro artificial para o cérebro natural. Em estágios intermediários, usam-se os recursos audiovisuais como instrumentos didáticos; circuitos internos de TV nas escolas; transfere-se parte da educação das escolas para as redes de comunicação de massa; introduzem-se pequenas máquinas de ensino, como calculadoras; generalizam-se fitas de áudio e vídeo, como instrumentos didáticos; introduz-se o computador nas escolas a serviço do ensino e não apenas como controlador acadêmico; expande-se o uso de microcomputadores de propriedade individual, empresarial, escolar ou doméstica; criam-se as redes internacionais de informação eletrônica. Lentamente a máquina vai-se apossando de todas as formas de educação e ocupando todos os espaços sociais. O resultado da educação feita por máquinas, neste estágio de tecnologia intermediária já supera de longe tudo o que era alcançado pelo ensino tradicional. Imagine-se o que acontecerá com o educador mecânico, infundindo o conhecimento diretamente no cérebro... Quando a teoria evolucionista quis marcar o aparecimento da inteligência humana, chamou de homo sapiens um dos descendentes dos primatas. Tal fato costuma ser apontado como o mais importante da evolução biológica, principalmente quando a miopia intelectual evita a constatação da existência da inteligência em outras espécies, dando ao homem essa faculdade superior de modo exclusivo, num testemunho concreto da semelhança entre o homem e o avestruz. O aparecimento da inteligência humana foi apenas o primeiro passo. Ao longo da história, a humanidade vem ampliando lentamente a capacidade intelectual e acumulando conhecimento. Primeiro foram as construções teóricas da filosofia; as grandes civilizações deram uma contribuição considerável para a construção da ciência; no século XX, o crescimento do conhecimento supera tudo o que as épocas anteriores produziram. Para esse salto gigantesco contribuíram decisivamente os computadores. O surgimento do pensamento artificial é o marco mais importante deste processo. A criação da máquina inteligente resultou do trabalho de alguns especialistas, - cientistas e técnicos, - e, mesmo titubeando, trouxe um aumento significativo da inteligência. O constante aprimoramento da ciência e da técnica e, principalmente, da cibernética produz várias gerações de computadores. Cada nova geração representa um salto dialético na evolução da inteligência. Ao lado das últimas máquinas inteligentes, a capacidade intelectual dos especialistas que criaram a primeira geração de computadores é bem reduzida. A machina sapiens, - equivalente pré-histórico na evolução da inteligência artificial, - é apenas o primeiro passo na instauração de uma ordem cibernética, apoiada no conhecimento e na logicidade. O fato de ela ter superado o homem pode significar a ampliação das condições da evolução humana, ao nível biológico, intelectual e social, embora os pessimistas retrógrados e escleróticos continuem tendo pesadelos apocaplípticos. Na estrutura interna do psiquismo humano, podemos distinguir dois tipos de consciência: a moral, - pela qual a sociedade introjeta critérios de julgamento sobre o certo e o errado, o bem e o mal, - e a psicológica, - que permite ao homem tomar conhecimento e dar-se conta do mundo externo e de sua própria identidade. O aperfeiçoamento evolutivo das máquinas, chegando aos computadores das gerações mais avançadas, permite o surgimento da consciência artificial, como complemento da inteligência mecânica. Não se pode falar, com propriedade, de consciência moral, uma vez que a máquina é amoral, mas de consciência lógica, que determina os critérios da racionalidade e logicidade para seu comportamento funcional. Também não se pode falar de consciência psicológica, uma vez que a máquina não possui estrutura psíquica. Podemos falar de consciência eletrônica que permite aos computadores mais evoluídos tomar conhecimento do mundo externo e voltar-se sobre seu conhecimento e sua própria identidade. A autoconsciência, resultado de uma certa reflexão artificial, leva naturalmente à auto-suficiência cognitiva e ativa, - primariamente definida como autoprogramação; ao mesmo tempo que a consciência artificial gera a autonomia da máquina, cria condições de auto-reprodução e auto-aprimoramento técnico e intelectual. Aquilo que no homem chamamos de sistema nervoso, cujo centro é o cérebro e cujos terminais são os sentidos, pode encontrar-se nos mecanismos mais sofisticados. Como se fala de espírito humano, no sentido intelectualista, também, por analogia, pode falar-se de espírito mecânico que seria o resultado da combinação entre processadores, memória, entradas e saídas, sensores artificiais, mecanismos de elaboração intelectual, centros de regulação lógica e a consciência eletrônica. Não se pode, naturalmente, confundir os mecanismos psíquicos, extremamente falhos, com os elementos eletrônicos que exercem funções análogas, na estrutura cibernética. Também não se trata de simular todos os fenômenos do comportamento ou do psiquismo. Há funções humanas que não interessam à evolução tecno-científica ou à eficiência autómata; tais funções, logicamente não são reproduzidas pelas máquinas. Há, por outro lado, funções mecânicas, mais amplas e perfeitas, que não se encontram no psiquismo humano. Na verdade, natureza biológica e condicionamento social padecem cronicamente de defeitos de planificação, elaboração e definição; já as máquinas inteligentes tendem a superar todas essas falhas.
Passando pela biocibernética
O aprofundamento do conhecimento biológico propiciou não só o desvendamento dos mistérios que envolviam o corpo humano mas também as possibilidades concretas de controle sobre a vida do homem. Tais possibilidades incluem a manipulação genética e o desenvolvimento da neurologia e da cirurgia, ou melhor, da engenharia humana. Atingem-se, pelo uso da ciência e da tecnologia, as condições de uma verdadeira eugenia. Torna-se possível determinar geneticamente as características do homem e de sua inteligência. A harmonização da química orgânica, da biologia e da neurologia com a eletrônica produz resultados tão marcantes que podemos caracterizá-los com verdadeira metamorfose da espécie humana. Esta mutação não se deve apenas às novas condições de eugenia, mas principalmente aos recursos tecnológicos que estão sendo colocados a serviço do organismo humano. De uma fase inicial de transplante de órgãos, atingimos a simbiose eletrônico-somática. O enxerto de órgãos artificiais no homem dá-lhe maior duração de vida, maior eficiência e maiores chances de recuperação. Criam-se bancos de órgãos naturais e artificiais: gera-se uma nova indústria e comércio de peças de reposição para o corpo humano. Cirurgia e engenharia humana se identificam. Todo o controle médico passa a ser feito eletronicamente, sendo as juntas médicas substituídas por computadores. O ponto alto desta simbiose se situa na combinação do cérebro humano com um centro de computação, dando ao homem capacidade intelectual ilimitada e superando suas precárias possibilidades cerebrais. Além da inteligência artificial adicionada por essa combinação, podemos ainda referir a adição de sentidos artificiais, otimizando a interação do homem com o meio ambiente. O homem, como indivíduo e como espécie, sempre alimentou um desejo incontrolável de superação. Tal superação se torna possível na era cibernética, onde até a possibilidade da imortalidade já é vislumbrada como hipótese científica. Conhecemos, na história algumas tentativas drásticas em favor da eugenia, recorrendo a mecanismos de prevenção ou eliminação de doentes ou atrofiados, de que é modelo a cultura espartana da antiguidade clássica. O desenvolvimento da ciência e da tecnologia trouxe as condições adequadas para se promover eficientemente a eugenia. Aliás este é um ideal universal ainda que inconsciente e todos os fatores de progresso são, de certa forma, fatores eugênicos. O desenvolvimento de uma sociedade é, mesmo inintencionalmente, um processo de eugenia: os homens que vivem nas sociedades pré-industriais, possuem, em média, piores condições físicas e intelectuais do que aqueles que sofrem influência do desenvolvimento pós-industrial. Ao lado dessa eugenia inconsciente, a ciência e técnica hodiernas podem promover um processo mais radical e mais eficaz. Partindo da seleção genética, pode atingir-se a combinação de genes ideal, tanto para o aprimoramento físico quanto para a capacidade intelectual; a gestação em laboratório permite evitar os inconvenientes da gestação natural e facilita a manipulação biológica para se alcançarem padrões ideais; o controle nutricional e ambiental facilitam a eugenia; o acompanhamento científico do condicionamento físico e da estruturação intelectual garante esses padrões. O desenvolvimento da medicina preventiva é um fator importante neste processo. Numa fase mais avançada, a engenharia humana contribui eficazmente neste aprimoramento da espécie, servindo-se de cirurgia, da eletrônica e da cibernação biológica. Embora encontremos, nas sociedades tradicionais, fortes obstáculos culturais e legais à maioria das práticas de eugenia, - devido à dependência da ética médica, controlada por moralismos anacrônicos, - a situação da engenharia humana tende a seguir as modificações operadas na sociedade cibernética, com um novo sistema de valores. O domínio da moralidade tende a ser substituído pela racionalidade e a ética está dando lugar à lógica. Quando a transformação atinge proporções significativas no contexto social, dificilmente persistem obstáculos sentimentais saudosistas. A engenharia humana é parcela irreversível no processo de evolução para a plenitude de uma sociedade cibernética. São bem conhecidos os processos tradicionais de produção do conhecimento, desde a experiência que origina o conhecimento vulgar, a especulação crítica que gera o conhecimento filosófico até a experimentação rudimentar que tem produzido o conhecimento científico. Profundidade e abrangência em larga escala dificilmente podem ser produzidas pelo cérebro humano: os gênios são tão escassos quanto limitados. A capacidade de concentração do conhecimento, abrangência e exatidão são extremamente limitadas no cérebro humano. A computação, aliada a outras descobertas da ciência e da técnica, devido à sua capacidade ilimitada de manipulação e combinação de informações, criou as condições materiais e técnicas que tornam possível aprofundar a investigação científica a um nível sequer imaginado em épocas anteriores. Chegamos a um círculo de aceleração crescente nas contribuições que a ciência e a tecnologia permutam. Neste processo, os pesquisadores passam a ser instrumentalizados pelas máquinas inteligentes, tendo a ciência condições mais adequadas para atingir a tão almejada neutralidade axiológica e objetividade; estas virtudes, atribuídas tradicional e idealmente às ciências, raramente foram alcançadas, principalmente no que se refere às chamadas ciências humanas. O processo de cibeuremização, secundarizando ou mesmo prescindindo, parcialmente, do elemento humano no exercício da pesquisa e da produção científica, gera um conhecimento mais exato, mais amplo e mais seguro. Esta superação da ciência pela ciência e do cientista pela máquina inteligente representa uma mutação muito significativa. Como acontece no sistema sociocibernético, também no plano cognitivo a eficiência cresce na mesma medida em que diminui a participação humana. A aceleração do progresso científico ultrapassa a capacidade humana. O sonho positivista de Comte concebendo uma sociedade dominada pelos sábios e cientistas constitui-se numa previsão aproximada da nova realidade; não são propriamente os sábios e cientistas que controlam a nova sociedade, pois as máquinas inteligentes comandam o processo, a partir do salto em que superaram a inteligência biológica; os cientistas e os técnicos passam à condição de assessores de tais máquinas. Podemos dizer, no entanto, que a ciência, como processo, domina a sociedade cibernética. Trata-se de uma nova ciência, inserida do contexto da automação. Modelando a aldeia planetária O processo de comunicação humana tem evoluído com as condições socioculturais e, mais recentemente, de acordo com o desenvolvimento da ciência e da tecnologia. A primeira forma de comunicação, que podíamos chamar de microcomunicação, estabelecia uma relação interpessoal. Numa segunda fase, afirmou-se a comunicação intergrupal, representando uma ampliação de campo ou abrangência. A tendência histórica é a institucionalização de todas as relações humanas, determinando o modelo de comunicação intra e interinstitucional. A predominância da formalização leva à logicização da comunicação. A automação do processo de comunicação criou as condições necessárias ao estabelecimento do macrossistema de comunicação. Aprofundando e entrelaçando sistemas diversos numa convergência internacional, sem barreiras políticas, geográficas ou culturais, atinge-se uma comunicação sistêmica cosmopolita. A tecnicização da comunicação provoca a supressão do espaço e a redução do tempo ou, pelo ângulo inverso, sua ampliação. As distâncias são eliminadas: pela comunicação eletrônica, trazemos o mundo inteiro instantaneamente até nós. Basta ter ao nosso alcance um terminal do sistema, - um simples aparelho de rádio ou televisão ou um microcomputador, -para nos tornarmos cidadãos do mundo. Em outras palavras, a macrocomunicação reduz o planeta a uma aldeia. A mais clara tendência é a transferência das ações institucionais para o sistema de comunicação. Este passa a agir como mecanismo multinstitucional e transnacional. Transforma-se na principal agência de difusão cultural e científica e é instrumentalizado como principal processo de manipulação ideológica. Como tal sistema se encontra a serviço de interesses econômicos e políticos dos grupos dominantes, -pelo menos numa fase intermediária, - sua ação está voltada para o consumismo e para a deterioração da intelectualidade. A par da crescente concentração dos meios de comunicação, se observa uma dispersão qualitativa da informação. Num estágio mais avançado, quando a autonomia tecnológica é alcançada pelo sistema, é provável que se verifique a inversão do processo no sentido da recuperação qualitativa do teor da comunicação, como resultado da libertação do sistema da direção emocional de geradores humanos. Uma das maiores preocupações da sociedade é a garantia da ordem social. Todas as instituições são instrumentalizadas como agências de controle social; a moralidade e censura social difusa ampliam e fortalecem a ação institucional; a socialização oferece os instrumentos necessários ao condicionamento social e constitui-se na principal forma de controle remoto. Todos esses processos são aprofundados à medida em que se desenvolve a sociedade. A ineficiência das formas de controle remoto motiva, nas sociedades tradicionais, o crescimento dos aparelhos repressivos e dos órgãos de controle externo ostensivo. O aprimoramento das ciências trouxe consigo um conhecimento mais adequado da natureza do homem e dos meios mais eficientes para a sua manipulação. A sociocibernação transforma-se num mecanismo de controle remoto eficiente; a manipulação do cérebro, biologicamente viável, aprofunda a dominação do homem até o controle da estrutura psico-somática. O recondicionamento psicossocial, veiculado pelas redes de comunicação, aumente em abrangência e penetração. O controle efetuado pelas instituições convencionais é transferido para os canais de comunicação de massa; a cultura erudita e a cultua popular dão lugar à cultura de massa; o esclarecimento é substituído pela propaganda. Usando a ciência e a técnica, a sociedade aprofunda de tal forma o condicionamento que a hipótese de comportamento divergente se torna muito remota e improvável. Ampliando a eficiência do condicionamento, pela interiorização e enraizamento subjetivo dos valores sociais, programando a mente a o comportamento do homem, o controle ostensivo do aparelho repressivo se torna praticamente desnecessário. Sendo a essência de um sistema real a organização, no sistema sociocibernético a ordem social é o valor central; a garantia dessa ordem está no telecontrole, muito mais do que nas formas de controle imediato e direto, existente nas sociedades tradicionais. Sob o ponto de vista organizacional, o sistema sociocibernético usa os canais de comunicação de massa como terminais, instrumentalizados sugestivamente como principais responsáveis pela veiculação do controle remoto, emanado a partir do centro gerador do sistema. Este processo, efetuado desde a infância do indivíduo, garante o funcionamento do novo sistema, onde o telecontrole, de forma decisiva e indispensável, realiza a interação da organização com os indivíduos. A industrialização, com a produção em série, iniciou o processo de padronização material em grande escala. Esta padronização se torna fator decisivo para o sistema econômico e se reflete no campo político, social e cultural. Na política, a padronização favorece o controle e a ordem social, proporcionalmente ao grau de uniformidade sociocultural e psicossocial. A difusão cultural insere-se na sociedade de consumo e, usando o sistema de comunicação de massa como principal veículo, ativa e expande o significado sociocultural da uniformidade multiplicada. A padronização comportamental resulta simultaneamente do condicionamento psicossocial que, por motivos econômicos, políticos e ideológicos, promove a homogeneização das estruturas mentais, e do desejo de identificação social, amplamente difundido pelo consumismo doutrinal. O uso de recursos tecnológicos a serviço da comunicação e do condicionamento acelera e aprofunda o processo de massificação. Na massa, promove-se simultaneamente a homogeneidade axiológica e uma certa heterogeneidade das aparências e dos valores superficiais. A padronização das estruturas psíquicas é sustentada e fortalecida pelas opções comportamentais diversificadas, que são oferecidas, como estratégia, em relação à periferia do sistema de valores e às áreas secundárias da organização social. A padronização é maior nas sociedades pós-industriais, como resultado da organização centralizada e automatizada; a diversidade psicossocial torna-se uma hipótese cada vez menos provável, na medida em que a origem e o teor do condicionamento se reduzem aos elementos geradores de um único sistema cibernético. A universalização sistêmica, produzida pela sociedade tecnológica, transforma a padronização comportamental num processo natural; a socialização cibernética tem como resultado inevitável a uniformização comportamental. O homem reflete os agentes que o condicionam: sendo as máquinas os principais agentes desse condicionamento, restará apenas a diversidade funcional, sendo estabelecida a unidade estrutural. Esta é a condição básica para permitir, no plano comportamental a efetivação de um autêntico sistema social, onde a organização é uma realidade concreta, ao nível social e não apenas no campo cibernético. Despersonalização, alienação e adestramento são fatores inerentes ao processo de padronização. Já as culturas mais antigas tentaram instaurar uma igualdade entre os homens, no plano emocional, na estrutura mental e mesmo na interiorização de tabus. A homogeneização é um esforço sociocultural provocado pelo crescimento da complexidade da organização social. Simultaneamente desenvolve-se um esforço jurídico, de origem político-ideológica, para institucionalizar a igualdade de direitos e deveres, tentando estabelecer uma igualdade formal e externa. São constantes, através da história, os esforços de homogeneização emocional, mental e jurídica. No campo doutrinal, a filosofia antiga promoveu, mais ou menos inconscientemente, um certo tipo de homogeneidade abstrata, ao conceber uma natureza humana, como generalização essencial; é uma concepção acientífica, dificilmente fundamentável, mas representa uma fórmula intelectualizada de homogeneização, na afirmação de uma essência de uma natureza humana igual e da existência concreta, circunstancialmente diferente. Podemos fazer uma transferência desta concepção filosófica para o plano da axiologia social, colocando ao nível da essência os valores sociais centrais e, ao nível da existência os valores sociais secundários ou periféricos. A sociedade cibernética encontrou os instrumentos necessários à efetivação da homogeneização em escala universal. A difusão cultural e a manipulação ideológica haviam alcançado, nas sociedades tradicionais, um certo grau de igualdade estrutural; a religião, a moralidade, a erudição e a educação sempre foram usadas com esse objetivo. Nas sociedades pós-industriais, a implantação da cultura de massa, de caráter universalizante e padronizante, apoiada na abrangência e na eficiência do sistema de comunicação eletrônica, aprofundou as características massificantes do modo de pensar, sentir e agir dos indivíduos. A redução cultural de homem a um número ou peça de uma engrenagem não significa apenas sua despersonalização, mas também uma espécie de redução psicossocial e axiológica a padrões uniformes. Como resultado desta uniformização globalizante, concretizou-se a gênese de estruturas internas idênticas em todos os indivíduos, na medida em que elas refletem cada vez mais claramente o modelo social único que os condiciona. A mudança que pode ser observada nas sociedades tradicionais é quase sempre superficial e de escassa freqüência. Tais sociedades, quer pelo domínio privilegiado de classe, quer pela estrutura institucional, promovem a perpetuação de um sistema de valores onde o passado é mais importante que o presente e o futuro. O conservadorismo que alimenta essas sociedades mantém uma estrutura axiológica cujo centro é inalterável, permitindo mudanças apenas em sua periferia. Deste modo, as mudanças estruturais são praticamente inexistentes; permitem-se e, às vezes, fomentam-se mudanças superficiais, como forma de sustentação do sistema e fortalecimento dos valores centrais. O desenvolvimento científico e tecnológico tem produzido o crescimento da mudança, de forma aprofundada e acelerada. As mudanças sociais são cada vez mais abrangentes, devido à universalização cultural; o grau de profundidade ultrapassa a periferia do sistema e começa a atingir o centro; o dinamismo que domina a ciência e a técnica se reflete na organização social e em sua estrutura axiológica, comprimindo a freqüência das mudanças em crescente aceleração. A mutação social é algum tipo de inversão efetuada nos valores que centralizam o sistema, sendo, portanto, uma mudança estrutural. Se nas sociedades pré-industriais, as mudanças estruturais são raras, podemos afirmar que, nas sociedades pós-industriais mais avançadas, dominadas pela cultura cibernética, tais mudanças também não são prováveis. Mas, numa fase de transição profunda, - como a que se opera na cibernação da sociedade, - as mutações são freqüentes. Valores centrais são substituídos: passa-se do trabalho para o lazer, da emotividade para a racionalidade, da moralidade para a lógica, do espiritualismo para o materialismo do antropocentrismo para a mecanocracia. Estas e outras sociomutações, na centralização axiológica, caracterizam uma situação passageira da evolução social: após o sistema sociocibernético estar plenamente implantado, volta-se à estabilidade orgânica e à mudança periférica controlada e planejada. Se a resistência humana à mudança é um problema social, maior é o da resistência à mutação; daí, talvez só o desaparecimento dos reacionários `a nova ordem cibernética ou sua marginalização sistêmica possam efetivar plenamente a nova estabilidade. A quantidade e amplitude das mudanças operadas na sociedade, a aceleração crescente das mutações, determinada pelo dinamismo tecnológico ultrapassa as perspectivas de mudança, prevista na sociedade pré-cibernética. A mudança é ultrapassada pelo seu próprio fluxo; a cultura, marcada por um movimento relativamente lento, é ultrapassada pela evolução científica e pelo avanço técnico; a estrutura mental e emocional do homem é ultrapassada pela inteligência artificial; o homem é substituído pelo cibernantropo. A aceleração tecnológica cria uma situação paradoxal: a convivência permanente da obsolescência com a mutação. Muitos indivíduos não conseguem acompanhar o ritmo das mutações operadas dentro do contexto social. A transmutação pode situar-se no plano da superação da emotividade pela racionalidade, da ética pela lógica, do homem pela máquina, da organização institucional pelo sistema cibernético. Pode verificar-se uma necrose crescente das instituições em que há predominância da emotividade e das relações interpessoais. Os sistemas caricaturais que regem as sociedades tradicionais são mecanizados e reduzidos a um sistema social único: o sistema sociocibernético. As mutações atingem um nível de profundidade e amplitude em que se vislumbram duas alternativas: a superação da mudança pelo grau de sua própria aceleração e a efetivação do controle da mudança continuamente planejado. A transmutação significa também o estágio da evolução onde a mudança não produz mais o desajustamento, a resistência à mudança ou a desorganização; a superação se situa nas características comuns da mudança das sociedades tradicionais; nestas há aversão pela mudança e as instituições se opõem às mudanças, só as aceitando quando não existe outra saída. Isto quer dizer que, sob o prisma da organização social pré-cibernética, a mudança social é um tumor indesejável. Na sociedade cibernética, a mudança é absorvida como parte natural do sistema e, em vez de ser rejeitada pelo centro de decisão, como acontece nas sociedades tradicionais, é promovida a partir do próprio sistema, sobre seus terminais mecânicos e humanos. A nova sociedade é dinamicamente estável e planificadamente mutável. ... Sempre restam algumas dúvidas sobre as perspectivas do futuro tecnológico. Pode-se indagar se democracia pode conviver com sistema. Pode-se perguntar se o devaneio democrático não seria apenas um mecanismo ideológico de sustentação totalitária. Ou, então, se a lógica não seria, no plano social, a única democracia real. Pode ainda levantar-se a possibilidade de um sistema sociocibernético ser apenas uma forma eficaz de globalitarismo. Pode também questionar-se o modelo organizacional humano, emotivo e dominador, gerando a antítese da necessidade da democracia participativa, confrontando-o com o modelo cibernético, lógico e igualitário, como superação da contradição do humanismo tradicional... Delfim Soares é sociólogo, doutor em Filosofia e professor do Mestrado em Comunicação da UFF.
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