NOVA NÔMINA ANATÔMICA

        "Se o nome está errado, se significa algo que já não é mais aquilo que se pensava inicialmente, é preciso mudar. Há termos rebarbativos, complexos, que não têm maior significado e que, por isso, foram substituídos. Não houve revolução contra isso, portanto as modificações que ocorreram não são tão grandes."


        Ao longo da história da humanidade, nunca, como agora se pretende, os anatomistas foram unânimes quanto ao uso dos nomes das estruturas do corpo humano. Com a globalização, há a crescente necessidade de uniformizar essa linguagem, para que todos possam se comunicar de maneira melhor e mais ágil.

        A nova nomenclatura da anatomia, que deverá ser aceita mundialmente, foi apresentada em São Paulo, em agosto de 1997, com a presença de especialistas representantes de todos os continentes, entre eles o professor Liberato Di Dio, renomado anatomista brasileiro, que concedeu a seguinte entrevista:

    Sabemos que a Nomina Anatomica (nomenclatura da anatomia humana) vem sofrendo modificações já há alguns séculos. Como é o processo de definição da nomenclatura das estruturas corporais?

        Um grupo, formado por renomados anatomistas, se reunia e apresentava as listas com os termos. Por causa das inúmeras interrupções que ocorreram nesse trabalho durante a Primeira e a Segunda Guerras, alguns não se sentiam comprometidos com o trabalho e acabavam por não respeitar o uso dos nomes propostos.
Então, a Federação Internacional das Associações de Anatomistas (fundada em 1903) criou uma Comissão de Nomenclatura Anatômica. Essa Comissão, pedia sugestões para todo o mundo. Os anatomistas enviavam as sugestões e a comissão aceitava ou rejeitava os nomes, criava a lista e a publicava. Mas nem todos, por um motivo ou por outro, aderiam às propostas vindas dessa comissão.

    Há alguma diferença no trabalho de criação dessa nova lista?

        Sim, e isso é o mais importante para a Nomina Anatomica de São Paulo. Pela primeira vez, em quase cem anos da existência da Federação, houve uma comissão eleita livremente pela assembléia geral, que representasse os cinco continentes, que fossem os melhores especialistas em lingüística anatômica, que fossem cientistas, que fossem poliglotas. Foi um processo democrático para que ninguém pudesse criticar que não houve uma representação total.

    Qual foi o objetivo dessa Comissão?

        A finalidade foi escolher os melhores nomes de todos os que existiam, escolher os que mais fossem informativos e descritivos de cada estrutura.

    Qual foi o critério para a mudança dos nomes?

        Quando tínhamos nomes complexos e simples escolhemos os simples, quando tínhamos um nome que dava indicação da forma ou da função do músculo, usamos esse. E, por fim, usamos só um para cada estrutura quando havia o mesmo nome para duas ou mais estruturas.

   Quantos nomes foram alterados?

        Há casos em que existia cinco, seis nomes para uma estrutura só, então escolhemos o mais simples, o mais fácil e o mais exato.
Foram revistos aproximadamente dez mil nomes. Desses, quatro mil não foram incluídos na lista, isto é, somente seis mil foram analisados. Eu imagino que de 10% a 15% tiveram de ser modificados, pois estavam errados.
Por exemplo: corpo pineal era chamado assim porque não se sabia para que servia pineal. Pesquisas recentes demonstraram que pineal é uma glândula. Então substituiu-se corpo por glândula, ficando glândula pineal.

    Isso significa que os livros de Biologia, Ciências e Medicina terão de ser atualizados?

        Não necessariamente. Há livros que já trazem há muito tempo os nomes propostos pela Nomina de São Paulo. Por exemplo, o termo ulna (antigo cúbito) já vinha sendo usado. Como este, muitos outros nomes que estão na nova nomenclatura já eram usados por muitos, e muitos livros já os adotavam. Mas se o livro trouxer o nome antigo, aos poucos ele deverá ser atualizado.
Eu acredito que, se a nova Nomina teve uma representação democrática todos irão assumir o compromisso de respeitar o que a maioria decidiu, mas mesmo assim ninguém tem a obrigação. Entretanto, caso alguém não use os termos propostos, nós, que somos a maioria, temos o direito de dizer: "o senhor não está atualizado".

  

    Veja a nova nomenclatura na íntegra 

        É provável que no final do ano a Federação publique a edição oficial, que sairá em latim e em inglês. Assim que eu receber um exemplar dessa edição, irei me reunir com uma comissão de brasileiros para iniciar a tradução para o português. Que deverá estar pronta em março de 1998.

   Os portugueses também vão participar dessa comissão?

        Não. E esse é outro problema que nós vamos ter de enfrentar, porque os portugueses não aceitam determinados nomes que os brasileiros usam. Não posso nem ousar em escrever para os portugueses.

    O senhor acredita que as pessoas vão aceitar usar os novos termos?

        Ninguém tem obrigação de usar os termos novos. Se você quiser continuar usando omoplata em vez de escápula, tudo bem. Eu, por exemplo, uso escápula há cinqüenta anos.
Se as revistas de publicação de trabalhos científicos decidem que os trabalhos devem seguir a terminologia anatômica de São Paulo, e você não utilizá-la, então o trabalho será devolvido para se fazer a correção. Vai ser possível usar os nomes oficiais e, entre parênteses, os termos de que você gosta. Mas daqui dez anos ninguém mais vai perder tempo em escrever mais de um nome.

    O senhor poderia dar alguns exemplos de nomes que foram mudados na Nomina de São Paulo?

        Eu tenho exemplos que as pessoas usam e vão continuar usando, mas aos poucos eles vão mudar.
O nome oficial de Pomo de Adão é Proeminência Laríngea, pois é a saliência da laringe. Por que a mudança? Porque Pomo de Adão em hebraico quer dizer Pombo de homem (Pombus Adami em latim, Adans Apple em inglês), porque só os homens têm. Recentemente verificou-se que as mulheres também têm. Como uma mulher tem um pomo de um homem? Então é Pomo de Eva, pois Eva em hebraico quer dizer mulher. Mas também há homens que não têm, e, por isso seu sexo ficará indefinido? O problema é sério!
Outro exemplo: no principio deste século, havia um músculo chamado capuciforme, em latim é cuculares, que quer dizer um músculo que se parece com o cúculos e o cúculos é o capuz de um frade que tem a forma de um triângulo, por isso virou músculo trapézio. Mas por que dar esse privilégio para a vestimenta dos frades? Por que não biquíni, músculo do biquíni?
Como eu disse, o nome deve representar a descrição ou função de cada parte, e se todos usarem o mesmo termo vai ser mais fácil de se comunicar.

Liberato Di Dio é o secretário-geral do Comitê Federativo de Terminologia Anatômica. Formado pela Universidade de São Paulo, foi professor nos Estados Unidos por 35 anos. Atualmente, aos 77 anos, trabalha na Universidade de Santo Amaro em São Paulo, SP.